domingo, 14 de julho de 2013

ESCRITA CRIATIVA IV

Novo desafio! CARLINHA também escreve no sítio do costume!


Um homem perde o bilhete ganhador da lotaria. Explore este enredo.

Ficou louco; passa os dias alienado a deambular nos corredores da casa de saúde, em mutismo. Pobre homem. Há bens que vêm por mal…

Não aconteceu nos EUA nem foi história dos meios de comunicação social: o desditoso professor de música por pouco não ficou milionário. A beirar os 40 anos – tímido e desengonçado (solteiro) - levava uma vida de trabalho no seu Clio azeitona a cair de podre, deslocando-se para aqui e acolá, com horários de merda (tapa-buracos) em duas escolas para conseguir pagar as contas. Parecia-me bom homem; pelo menos era bom vizinho. Ganhou na lotaria – “10 milhões de euros” – confidenciou-me ele, trémulo, naquele dia. Bateu-me à porta já depois do jantar a perguntar se lhe emprestava “um calmante fraquinho”, que não estava habituado a tomar “aquelas coisas”, mas que “a ocasião o justificava”. Eu dei-lhe uma palete com 3 Atarax que tinha em casa e que me foram receitados na altura dos exames de admissão à Ordem dos Advogados. Fiquei feliz por ele. Certamente que o dinheiro, não trazendo felicidade, lhe iria colorir a vida cinzenta que levava - assim o denunciava o semblante.

O resto da história foi-me relatado – nunca mais falei com o desgraçado do professor Nuno. Rico, portador do bilhete de lotaria com o número vencedor, no dia a seguir lá fora assumir os seus compromissos habituais e ensinar acordes de guitarra num domicílio: assaltaram-lhe o carro – teria uns CD’s à mostra e pouco mais - e levaram, sem saber, os números vencedores que estariam no porta-luvas, pendentes para a milionária troca no dia a seguir.

Uma tragédia. Nem ganhou Nuno, nem ganharam os vândalos, que não deram pela “coisa”, pelo trevo de quatro folhas que aquele velho Clio guardava (aqueles nem ladrões eram – o automóvel foi queimado e atirado numa ravina poucos quilómetros a seguir ao local do furto). Todos perderam. O professor não precisou mais de Atarax – a sorte (a sorte?) destinou-lhe outros cocktails de pílulas, daqueles que te deixam fora deste mundo.

Ficou louco; passa os dias alienado a deambular nos corredores da casa de saúde, em mutismo, já lá vai mais de um ano. Pobre-rico-homem: há estórias assim.

Eu nunca mais comprei a lotaria; fiquei com a certeza de que há bens que vêm por mal. E não, não se consegue viver feliz para sempre.

 

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