sábado, 30 de novembro de 2013

BH day

Hoje estou em:


BAD
HAIR
DAY



(mas não interessa nada porque vou jantar a um dos meus restaurantes preferidos! E era mesmo só isso que queria dizer; não vos queria desinformados).


 

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Uma história para (não) adormecer


Eles não se despediram. Em passos resolutos foram-se afastando: não tinham certezas, mas parecia-lhes que aquela seria a última vez. A ausência de palavras fê-los apartar, sentindo o mesmo: era um ADEUS. Já tinham vacilado demasiado, várias vezes tinha prevalecido o “talvez” no lugar da certeza, do “sim” ou do “não” reflectidos e assumidos. Era uma relação minada há muito. A corda que os unia era uma soma de nós remediados e, destes, alguns fundamentais se tinham deslaçado. (Na vida há nós que se deslaçam por si mesmos). De quem seria a culpa? De um deus em quem não acreditavam? Das mulheres que eram obrigados a suportar todos os dias, contra vontade? Culpa deles? Tudo teorias. Presenças e ausências repetidas tinham desorganizado o jogo. Não serviria de nada, naquele momento, a vitimização nem o apontar do dedo (eles continuavam a caminhar, arrastando os pés, cabisbaixos, de braços pendentes, sem direcção, num rumo improvisado e aleatório).

“(…) Quando os nossos braços ensaiarem um gesto fora do dia-a-dia ou não seguirem a marca deixada pelas rodas dos carros (…) - o melhor sítio para saber qualquer coisa da vida.”

O absurdo: um amor secreto e a sua antítese tornaram aquela situação incomportável – inexequível continuar sem descarrilar, impossível ficar sem partir, no silêncio das palavras (e dos beijos e dos abraços) a que se tinham deixado chegar. Para eles aquele adeus constituiria a única esperança de ficar…

Eles não se despediram. Não houve sentenças - as palavras nunca são só palavras. A par daquele amor homossexual, um egoísmo calado aliado a falta de coragem. (De pseudoteorias estava o mundo cheio). Os dois homens não arriscaram: pareciam dois bonecos de plasticina andando imóveis; não acordaram a tempo.

David por princípio nunca chorava e o vazio encheu-se tanto de nada que nem deixou espaço para as boas recordações. Em fracções de segundo e, paradoxalmente, a meio da passadeira, mas como que para salvá-lo de uma perene tristeza, o líquor começou a jorrar-lhe pelo nariz e pelos ouvidos. O embate foi frontal - um camião TIR: um traumatismo crânio-encefálico. Pedro era agora um cérebro morto num coração vivo.

Tinoni, tinoni, tinoni … Um morto-vivo numa unidade de cuidados intensivos.

Uma estória, como tantas outras, de vidas com bandeiras a meia haste. Houve uma segunda oportunidade: o coração de Pedro continuou a viver noutro corpo, mas nem sempre a vida nos deixa repetir…

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Fui desafiada outra vez!


Há segundos que mudam vidas.

O suor escorria-lhe em bica; Luísa tremia até ao seu mais pequeno átomo de carbono; nem a alma lhe era poupada. A midríase, a respiração entrecortada e a taquicardia eram pouco, quando comparadas à ebulição em que se encontravam os seus neurónios (razão) e músculo cardíaco (coração), ligados por uma rede de aço invisível. Aquela decisão exigia muito mais do que só coragem: Luísa estava prestes a quebrar princípios… Desapegada e destemida era ela, mas a questão que se punha, naquela altura, era a necessidade de uma mentira. Deliberadamente mentir, para não ser eliminada naquela que seria a última e derradeira etapa da selecção. Acrescia-se um factor, que a empurrava para a decisão: sabia que se o fizesse não seria apanhada. As repercussões daquele acto, porém, a acontecerem, poriam em causa uma missão de escala mundial, de biliões de dólares e a esperança de toda uma humanidade na conquista de outros mundos, na expansão do Mundo-Terra ao Mundo-Universo.

Luísa, 35 anos, cientista portuguesa formada na NASA, encontrava-se a um click de enviar o formulário que, na semana seguinte, a iria por (ou não) no planeta Júpiter. Quase uma dezena de anos de preparação, de exigentes treinos físicos, de simulações, de antigravidade, de castração química para evitar que menstruasse, estavam prestes a dar frutos: a viagem interplanetária! A velocidade da luz deixaria de ser só utopia. Desde há vários anos que a astronauta deitava-se e acordava a pensar naquele dia. Não tinha namorados; as hormonas que era obrigada a tomar, roubavam-lhe a libido e ela também nunca tinha bem definido a sua sexualidade. Nunca fora uma prioridade. Vivia no Laboratório; dormia em casa; ouvia jazz. Nas horas livres tinha construído um algoritmo que, no seu PC, mostrava a contagem decrescente, ao milésimo de segundo, e sinalizava todas as provas já superadas. Estava no TOP 10 dos mais de cinco mil concorrentes de todos os cantos do mundo que pretendiam destronar Armstrong na Lua.

Começava, como todos os questionários anteriores, por um “Juro por minha honra ser verdade que …”; a estas palavras, que vinham em maiúsculas e a negrito, seguiam-se uma série de itens para seleccionar “Sim” ou “Não” e que eram eliminatórios.

A última cruz tinha sido colocada. Os dedos trémulos pousados sobre o teclado, o cursor a viajar sobre o botão ENVIAR...

Há segundos que mudam vidas. Mas tudo perece.
 

domingo, 24 de novembro de 2013

sábado, 23 de novembro de 2013

FACEBOOK - quando me desafiam, sou assim!


Querido doutor (foi sempre assim que te chamei, desde o tempo dos lençóis de cetim vermelho e do gourmet que caracteriza os inícios de uma relação): estou farta.

Separados (apenas) por uma porta e pelo estatuto, - e também por causa da tua legítima - era ao chat que nos agarrávamos: apaixonámo-nos. Pagavas-me as contas do Holmes Place e dos saldos da Massimo Dutti: gostavas de mim, linda, impecável e calada. Querias as duas: a secretária vassala, e a amante atrevida; eu sabia sê-lo. Nunca me custou satisfazer-te e nunca te cobrei nada: nem tempo, nem Natais; fiz, ainda, sempre por esquecer aquelas vezes em que nem o “comprimidinho azul” te valia…

Os convites foram-me chegando – confesso-te que, poucas vezes, tive eu a iniciativa; recusei os que não me interessavam; fiz “likes”, partilhei fotografias e frases-feitas, e, nós, como habitualmente, em segredo, mantínhamos a vida paralela que nos rejuvenescia, já lá vão meia dúzia de anos. Começaste a sentir-te preterido: imaginaste-me desejada por vários dos teus pseudoamigos do facebook e obrigavas-me a eliminá-los da minha lista. Eu era tua secretária, sim, submissa - sim, senhor doutor - mas no meu facebook não iria permitir que mandasses. As conversas foram azedando: o ciúme patológico transformou-te num animal. Cheguei a bloquear-te para que não me visses online, - se não era contigo, não poderia ser com ninguém – dizias-me tu, - e mantive-me irrepreensível nas funções de secretária. Começaste a tratar-me como uma coisa, uma pastilha elástica do teu Império. Chegaram a censura e ameaças. Atingi o meu limite quando percebi que tinhas criado um perfil falso para me testares: pensavas que eu não sabia, querido doutor? Sei de cor os teus erros ortográficos e a tua incompetência na colocação de vírgulas, separando sistematicamente o sujeito do predicado.

Anexo a minha carta de demissão: todos da Administração se vão rir, vão acreditar que enlouqueci porque vou juntar um atestado de um psiquiatra inexperiente que vai diagnosticar-me uma perturbação obsessivo-compulsiva, onde afirmará que me despeço porque tu não me deixas estar conectada ao chat, a minha obsessão-compulsão… Não te aflijas, doutor, que nunca ninguém vai saber que o Pai das Chiclets tem pouco tesão (nem dos milhares que arrecadaste para a conta da Suiça). Eu sou um túmulo.

Quem sabe se “esta” não vai ser a nova doença do século?

Quem perde és tu. E não, já não gosto.

Ao dispor,

Rosa Kelly.