sexta-feira, 19 de julho de 2013

Ainda mais do campeonato nacional de escrita criativa

Este foi o desafio de que menos gostei. Pensei, pensei, pensei e, como tinha que ser, foi! A Descomplicómetro tem uma versão de excelente qualidade. Confirmem!

A beleza chora até morrer. Explore a metáfora (máx. 400 palavras)

O puto regressa da escola com a tarefa de explorar a metáfora: “A beleza chora até morrer”. Conseguem imaginar o meu pânico? Eu, doutorada em Física Quântica (o meu alfabeto são os números), avessa às Letras desde que me conheço, ter que ajudá-lo neste trabalho? (O meu marido – o habitualmente responsável pelo apoio aos TPC’s – está em comissão de serviço, em Angola. Sou mãe e pai).

- “Não vou ser capaz!” (Pensei eu, tentando disfarçar a frustração perante o expectante miúdo de dez anos, mas sem conseguir evitar um ego abalado.)

- “Mãe, devemos escrever entre 200 a 400 palavras. Não percebo bem: como é que a beleza chora?”

Rai’s partam o maricas do professor de português: ele que filosofe sobre o assunto, que assuma que tem mais estrogénios do que tomates (eu já ouvi muitos boatos), que mostre de vez o rosinha que há em si, e não me venha chagar o juízo com merdices destas. Eu sei lá porque é que a “beleza chora”.

- “Vamos ao bowling, filho, esquece isso.” (Apetece-me dizer.)

 Porque ela é parva? Porque não sabe que mais vale um pássaro na mão do que dois a voar? Porque é fraca, mimada? Porque passa fome para atingir o índice de massa corporal da subnutrição? “(…) chora até morrer.” – Claro está, deve sofrer de fibromialgia, ser deprimida, e, humana que é, morre como os outros - os feios (uns choram, outros não), porque todos morrem. A beleza chora até morrer. E daí? O que querem que eu faça? E a fealdade, ri?

- “Dediquemo-nos, então, ao teu TPC…”. (Sentamo-nos à secretária).

            Já disse que sou Professora no Instituto Superior Técnico? Que oriento teses sobre micropartículas, sobre senos e cossenos, estudos com equações que só 1% das pessoas no mundo consegue resolver, que tenho dezassete artigos publicados em revistas internacionais? Ah, pois é! E não, não quero que o meu filho escolha a área das Letras, que é desemprego na certa e meio caminho andado para ficar gay. Que seja economista, gestor, engenheiro ou médico; – o que é que interessa saber se a beleza chora ou se ri até morrer? Não morre na mesma?

-“ Zé, vamos jantar ao MacDonald’s e amanhã fazemos isso. Temos o fim-de-semana todo, não é”?

- “Boa ideia, mãe”.

Amanhã hei - de soltar a Margarida Rebelo Pinto que há em mim…

(Puta que os pariu.)

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