sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Uma história para (não) adormecer


Eles não se despediram. Em passos resolutos foram-se afastando: não tinham certezas, mas parecia-lhes que aquela seria a última vez. A ausência de palavras fê-los apartar, sentindo o mesmo: era um ADEUS. Já tinham vacilado demasiado, várias vezes tinha prevalecido o “talvez” no lugar da certeza, do “sim” ou do “não” reflectidos e assumidos. Era uma relação minada há muito. A corda que os unia era uma soma de nós remediados e, destes, alguns fundamentais se tinham deslaçado. (Na vida há nós que se deslaçam por si mesmos). De quem seria a culpa? De um deus em quem não acreditavam? Das mulheres que eram obrigados a suportar todos os dias, contra vontade? Culpa deles? Tudo teorias. Presenças e ausências repetidas tinham desorganizado o jogo. Não serviria de nada, naquele momento, a vitimização nem o apontar do dedo (eles continuavam a caminhar, arrastando os pés, cabisbaixos, de braços pendentes, sem direcção, num rumo improvisado e aleatório).

“(…) Quando os nossos braços ensaiarem um gesto fora do dia-a-dia ou não seguirem a marca deixada pelas rodas dos carros (…) - o melhor sítio para saber qualquer coisa da vida.”

O absurdo: um amor secreto e a sua antítese tornaram aquela situação incomportável – inexequível continuar sem descarrilar, impossível ficar sem partir, no silêncio das palavras (e dos beijos e dos abraços) a que se tinham deixado chegar. Para eles aquele adeus constituiria a única esperança de ficar…

Eles não se despediram. Não houve sentenças - as palavras nunca são só palavras. A par daquele amor homossexual, um egoísmo calado aliado a falta de coragem. (De pseudoteorias estava o mundo cheio). Os dois homens não arriscaram: pareciam dois bonecos de plasticina andando imóveis; não acordaram a tempo.

David por princípio nunca chorava e o vazio encheu-se tanto de nada que nem deixou espaço para as boas recordações. Em fracções de segundo e, paradoxalmente, a meio da passadeira, mas como que para salvá-lo de uma perene tristeza, o líquor começou a jorrar-lhe pelo nariz e pelos ouvidos. O embate foi frontal - um camião TIR: um traumatismo crânio-encefálico. Pedro era agora um cérebro morto num coração vivo.

Tinoni, tinoni, tinoni … Um morto-vivo numa unidade de cuidados intensivos.

Uma estória, como tantas outras, de vidas com bandeiras a meia haste. Houve uma segunda oportunidade: o coração de Pedro continuou a viver noutro corpo, mas nem sempre a vida nos deixa repetir…

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