sábado, 23 de novembro de 2013

FACEBOOK - quando me desafiam, sou assim!


Querido doutor (foi sempre assim que te chamei, desde o tempo dos lençóis de cetim vermelho e do gourmet que caracteriza os inícios de uma relação): estou farta.

Separados (apenas) por uma porta e pelo estatuto, - e também por causa da tua legítima - era ao chat que nos agarrávamos: apaixonámo-nos. Pagavas-me as contas do Holmes Place e dos saldos da Massimo Dutti: gostavas de mim, linda, impecável e calada. Querias as duas: a secretária vassala, e a amante atrevida; eu sabia sê-lo. Nunca me custou satisfazer-te e nunca te cobrei nada: nem tempo, nem Natais; fiz, ainda, sempre por esquecer aquelas vezes em que nem o “comprimidinho azul” te valia…

Os convites foram-me chegando – confesso-te que, poucas vezes, tive eu a iniciativa; recusei os que não me interessavam; fiz “likes”, partilhei fotografias e frases-feitas, e, nós, como habitualmente, em segredo, mantínhamos a vida paralela que nos rejuvenescia, já lá vão meia dúzia de anos. Começaste a sentir-te preterido: imaginaste-me desejada por vários dos teus pseudoamigos do facebook e obrigavas-me a eliminá-los da minha lista. Eu era tua secretária, sim, submissa - sim, senhor doutor - mas no meu facebook não iria permitir que mandasses. As conversas foram azedando: o ciúme patológico transformou-te num animal. Cheguei a bloquear-te para que não me visses online, - se não era contigo, não poderia ser com ninguém – dizias-me tu, - e mantive-me irrepreensível nas funções de secretária. Começaste a tratar-me como uma coisa, uma pastilha elástica do teu Império. Chegaram a censura e ameaças. Atingi o meu limite quando percebi que tinhas criado um perfil falso para me testares: pensavas que eu não sabia, querido doutor? Sei de cor os teus erros ortográficos e a tua incompetência na colocação de vírgulas, separando sistematicamente o sujeito do predicado.

Anexo a minha carta de demissão: todos da Administração se vão rir, vão acreditar que enlouqueci porque vou juntar um atestado de um psiquiatra inexperiente que vai diagnosticar-me uma perturbação obsessivo-compulsiva, onde afirmará que me despeço porque tu não me deixas estar conectada ao chat, a minha obsessão-compulsão… Não te aflijas, doutor, que nunca ninguém vai saber que o Pai das Chiclets tem pouco tesão (nem dos milhares que arrecadaste para a conta da Suiça). Eu sou um túmulo.

Quem sabe se “esta” não vai ser a nova doença do século?

Quem perde és tu. E não, já não gosto.

Ao dispor,

Rosa Kelly.

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